Alargamento

Resolvida a questão da aprovação do Tratado de Lisboa, deve a União Europeia pensar rapidamente se deseja absorver novos países, e quais. Sobre este ponto desejo expressar a minha opinião.

A minha opinião é que a União Europeia deve rapidamente integrar a Sérvia e a Croácia, e não deve, em princípio, aceitar qualquer outro candidato.

A Sérvia e a Croácia são dois países claramente europeus do ponto de vista cultural. São países relativamente avançados. Eles devem ser admitidos simultâneamente na União. Isto é muito importante, pois que a União deve, de vez, deixar para trás o erro dramático que cometeu no passado, a instâncias da Alemanha e da Áustria, ao favorecer a secessão da Croácia da antiga Jugoslávia e ao apoiá-la na guerra contra a Sérvia. É perfeitamente inadmissível, para mim, que a União integre a Croácia sem que simultâneamente admita a Sérvia. Também sob o ponto de vista económico isso seria ridículo, dado que há uma enorme e crescente integração económica entre esses dois países, como é perfeitamente normal.

Qualquer outra adesão é, a breve prazo, de rejeitar. A Noruega já uma vez recusou, a UE não tem nada que a pretender. A Islândia que vá bater a outra porta, a UE não tem nada que a socorrer quando ela no passado a rejeitou. O Montenegro é um país demasiado atrasado. A Macedónia tem problemas territoriais e étnicos nos quais a UE não se deve imiscuir - já bem basta Chipre - para além de ser demasiado pobre. A Albânia é, tal como o Kosovo, um país de contrabandistas - está fora dos padrões culturais e económicos da União.

A Bielorrúsia, a Ucrânia e a Moldávia são, lamentavelmente, países com gravíssimos problemas económicos e políticos. Não vale a pensa contemplar, sequer, a possibilidade de elas virem a aderir à União. Isso só poderia projudicar a União e não lhe traria qualquer benefício.

A adesão da Turquia parece-me claramente de rejeitar. Embora Istambul seja uma cidade europeia - e, de facto, hoje em dia toda a Bulgária seja, em larga medida, um subúrbio dessa megalópole - o resto da Turquia não é, culturalmente, europeia. As profundezas da Anatólia, e o Curdistão, não interessam à Europa e só lhe levantarão problemas, que ela não está preparada para resolver e nos quais, de facto, não se deve imiscuir. A Europa não pode deixar-se arrastar para questões como a partilha das águas do Eufrates, a divisão da Arménia, ou os peculiares costumes culturais (nós diríamos: grosseiras violações dos direitos humanos em geral, das mulheres em particular) do povo curdo.

Comentários

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Retrato de João Cardiga

Capacidade de integração

Bom artigo!

Julgo que já ultrapassamos a nossa capacidade de integração durante alguns anos, e neste caso julgo que até a Croacia e a Servia não deverão ser incluidas para já.

Temos já dentro de nós problemas suficientes (polónia, rep. checa, roménia, reino unido), além de que com o Tratado de Lisboa a forma de integração deverá se calhar ser repensada.

É preciso consolidar a componente politica da União Europeia e isso só será feito com estabilidade, senão será como um balão que enche demais - explode!

No entanto julgo que a pobreza nunca deverá ser um motivo de exclusão...

Retrato de Luís Lavoura

resposta

É verdade que a UE já tem dentro de si problemas suficientes. Mas a Sérvia e a Croácia não trarão muitos problemas à UE. Eu diria que são países bastante pacíficos. A guerra já acabou há muito tempo. Hoje em dia a Sérvia e a Croácia (e a Eslovénia!) têm economias bastante integradas e colaboram de forma bastante estreita entre si.

Eu penso que deixá-las de fora será um grande erro, pois que não há qualquer razão válida para isso. É inadmissível dizer aos sérvios que não podem entrar porque já deixámos entrar os romenos e eles já nos trouxeram demasiados problemas. Os sérvios responderão: "Olhem, não tivessem deixado entrar os romenos, agora não nos castiguem a nós pelos pecados deles."

Luís Lavoura

Retrato de João Mendes

A Turquia já foi aceite há

A Turquia já foi aceite há 10 anos...

Retrato de Luís Lavoura

Foi um erro

Mas ainda se está a tempo de corrigir esse erro.

Aliás, a própria Turquia tem pensamentos duplos sobre a UE.

Luís Lavoura

Retrato de Miguel Duarte

Pensamentos Duplos

Bem, os pensamentos duplos da Turquia prendem-se essencialmente pela rejeição a que têm sido submetidos. O objectivo de entrar para a UE, por parte dos Turcos aliás, também era duplo. Uns (a esquerda), queriam assegurar que a Turquia se mantinha laica e ocidentalizada. Outros, os conservadores actualmente no governo, queriam assegurar que conseguiam ser eleitos e aprovar (algumas) das liberdades ocidentais para islamizar o seu país (por exemplo, a questão do véu, que foi uma das prioridades do governo do Partido AKA).

A oferta nunca foi sincera (até porque foi resultado de pressões americanas). Sempre se esperou que a Turquia se reformasse e ocidentalizasse derivado da hipótese de entrar na UE, mas o resultado foi o inverso (acabou por vencer a versão dos conservadores).

No passado tínhamos um governo Turco que era pró-ocidental e uma sociedade que se estava a ocidentalizar e tornar menos conservadora, mas que dependia do exército para manter esta evolução e como tal não era propriamente um exemplo de democracia.

Hoje devido às pressões da UE para aumentar a democracia na UE que abriram as portas aos partidos islâmicos, tens um governo conservador islâmico, cada vez mais pró-Irão, que tem colocado na prisão a oposição (o mesmo também já lhe tinha sido feito a ele, sejamos justos) e tal como na Rússia e na Venezuela tem fechado órgãos de comunicação social da oposição. Houve algumas evoluções legais, mas a nível social os retrocessos estão a ser enormes por exemplo ao nível dos direitos das mulheres (com muitas mulheres a dizer que se estão a sentir coagidas a taparem-se por exemplo e com as violações a dispararem porque os tribunais já não as consideram um crime grave).

Um país assim não está em condições de se juntar à União Europeia. Como tu disseste, não tem nada a ver com a religião maioritária, mas sim, com questões culturais, a começar pela cultura democrática (e pela sua sustentabilidade). Não quero na UE nenhum país que só consiga manter-se uma sociedade livre sob a força das armas.

Obviamente tem que se apoiar a Turquia, tal como todos os países do mediterrâneo (e Portugal devia fazer pressão para isso), mas sob a oferta de um acordo de livre comércio.

Retrato de João Mendes

Enfim

Já percebi que as visões aqui são "ser candidato é o mesmo que entrar amanhã". Mas não é. A Turquia só entra quando cumprir os requisitos. Enquanto não cumprir, não entra. Escrever grandes textos a dizer que ainda não os cumpre é escrever um grande texto a constatar o óbvio. Passar daí a dizer que não se pode aceitar a Turquia como candidata vai um passo muito longo.

Retrato de Miguel Duarte

Bem...

A questão é que se calhar a Turquia nunca devia ter sido aceite como candidata porque não reunia os requisitos mínimos para tal ("It must respect the principles of liberty, democracy, respect for human rights and fundamental freedoms, and the rule of law). Uma sociedade maioritariamente ocidentalizada (não tem nada a ver com religião), também me deixava bem mais descansado.

Mas não tenho nada contra, como percebeste, a que a Turquia venha no futuro a integrar a União Europeia, apenas espero que seja dentro de muitos anos, depois de resolverem muitas coisas.

No curto prazo criaram-se falsas expectativas que não se deveriam ter criado.

Retrato de João Mendes

Eu sei com o que tem a ver

Todo este processo começou em 1959. 1999 foi apenas o ano em que a Turquia foi aceite como candidata em pé de igualdade. Falar em curtos-prazos num processo destes é como falar em gotas de água em relação a um oceano. Ninguém defende a entrada da Turquia amanhã, mas a Turquia já tem um acordo tarifário com a UE e já começou a implementar regras da mesma. A Turquia já tem a relação especial que já foi mencionada e preconizada e o facto de ser candidata criou de facto expectativas. Abandonar esse estatuto agora e frustrá-las seria um erro grave e teria consequências nefastas a nível de segurança energética da UE, a nível de relações com diversos países muçulmanos (nos quais as facções moderadas seriam descredibilizadas, independentemente das razões não terem a ver com religião), a nível dos problemas com o Chipre e a nível das relações com a própria Turquia, bem como a nível demográfico e de reforma da PAC. Manter a Turquia como candidata mas tornar claro que a entrada depende de cumprir os critérios pré-estabelecidos, criando assim incentivos a que se cumpram esses mesmos critérios, deve ser o caminho a seguir. Um caminho de longo-prazo, é certo, mas o melhor caminho a seguir na mesma.

Retrato de Hugo Garcia

eu defendo

Eu defendo:

Turquia
Marrocos
Canadá
Austrália
Japão
(e todos aqueles mencionados no post)

P.S. Limitar a UE a um clubezinho Cristão ou a uma questão geográfica parece-me Intelectualmente e Culturalmente redutor.

Retrato de João Cardiga

Mas também não devemos ter

Mas também não devemos ter uma visão icariana, não achas?

Retrato de Miguel Duarte

Sim, mas que tal limitá-lo a um clube de democracias funcionais?

Turquia e Marrocos ainda têm muito, mas mesmo muito para se tornarem países estáveis e com democracias funcionais que merecem fazer parte da União Europeia. E é como o Luís Lavoura diz, Istambul poderia fazer parte facilmente da União Europeia (e mais algumas partes da Turquia), mas existem regiões e problemas que neste momento não as queres claramente por cá, a não ser que sejas anti-federalista e que o que desejes na realidade é acabar com o projecto de uma Europa que seja também uma país.

E esqueceste-te na tua lista de mencionar também Israel ou até a Ucrânia e a Rússia. Que sejamos francos, também não fazem qualquer sentido neste momento juntar-se à UE, mas faria muito mais que a Turquia ou Marrocos.

Quanto aos outros países existe uma questão geográfica que não é desprezável, e mais uma vez, tudo depende de como vês a UE. Devemos ser simplesmente um "mercado livre", ou deveremos ser uma federação de Estados? Se queres uma federação de Estados que funcione têm que existir interesses comuns fortes, que muito dificilmente vais ter com um Japão, Austrália ou Canadá, mesmo que culturalmente estes dois últimos até estejam próximos de nós.

Aliás, ao abolires a questão geográfica quais são então os critérios para se fazer parte da UE? Porque não os Estados Unidos juntarem-se à UE? Ou a América do Sul em peso? E porque não os países africanos democráticos como a África do Sul e São Tomé e Príncipe? Ou a Índia que é a maior democracia do mundo?

Eu quero uma federação de Estados não um mero mercado livre que seja um amontoado de Estados sem quase nenhum critério.

Tal não impede obviamente de fazeres acordos de comércio livre e de ter relacionamentos especiais com os mesmos. Com um objectivo de longo prazo de eventualmente se juntarem à UE quando estiverem preparados para tal (e a UE também preparada para eles).

Retrato de Luís Lavoura

Não

Não se trata de "clube cristão". Eu nada teria contra a entrada da Turquia na UE se a Turquia fosse só Istambul e a costa do mar Egeu. Os muçulmanos não me assustam. O problema da Turquia é cultural, e reside no interior da Anatólia, isto é, na maior parte da Turquia.

Também não é uma questão geográfica, é uma questão cultural. É uma questão de atitudes culturais e políticas - respeito pela democracia, pelos direitos humanos, pela tolerância, etc.

Quanto ao Canadá, etc - estás a sonhar. Trata-se de países que estão economicamente integrados noutro mundo.

Luís Lavoura

De acordo com Lavoura

Estou fundamentalmente de acordo com o L Lavoura e acrescentaria um ponto:

Não é coerente defender uma integração aprofundada da Europa, ler federalismo, e defender simultaneamente a adesão da Turquia à UE. No dia em que o Jorge sampaio defendeu as duas ideias num artigo no Expresso, percebi, que o então Presidente não, pensava demasiado a fundo sobre o que escrevia.

Uma integração política aprofundada como a que se pretende com o Tratado de Lisboa requer coesão social, económica e, como bem diz LL, cultural. Eu acrescentaria que também pressupõe coesão geográfica e é por isso que é um absurdo falar da inclusão do Canadá na UE.

Mais, se repararem os grandes paladinos da integração da Turquia são países que não têm muito a ganhar com uma integração aprofundada da UE (e.g. UK e USA) mas que têm a ganhar com um espaço económico aberto (UK) e uma região pacificada ampla e amiga, (USA) e se possível com fronteiras extendidas nas áreas de influência da ex-URSS e do famigerado "eixo do mal" (como é o Irão e o Irak). Ora estas são razões geo-estratégicas que pouco têm a ver com preocupações sobre a viabilidade do projecto Europeu. Aliás, os Países mais federalistas são, logicamente, menos entusiastas da entrada da Turquia (e.g. Alemanha e França).

Foi obviamente um erro dar esperanças aos Turcos. Melhor seria ter negociado uma relação preferêncial ao nível da cooperação política e económica. Foi um erro que pagaremos caro pois ninguém sai ileso de criar falsas expectativas nos outros e depois as gorar. Mas este erro não justifica que protagonizemos uma fuga para a frente.

Miguel Araújo

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