Argumentações diferentes e preconceitos iguais

Na sequência do meu post o deputado João Almeida respondeu-me. Descobri que tanto ele como o Michael Seufert, também deputado dos Jovens Populares, fundamentam os seus votos no blogue "Da Última Fila" (já agora, um pouco de fair play, gostei da iniciativa). João Almeida afirma que se trata de uma questão jurídica (portanto, alguém que diz que ao Estado nada confia, confia afinal na definição pelo Estado de uma realidade social fundamental - os meus parabéns pela cambalhota argumentativa) e Michael Seufert, pelo contrário, afirma que se trata de uma questão pré-estatal e até (sacrilégio!) pré-religiosa.

Não posso deixar de notar que se trata de duas argumentações completamente díspares. Entre si e, também, daquilo que se tem lido da maior parte dos opositores ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A única coisa que as une é mesmo, sejamos honestos (e já sei que vou ser acusado de ser intolerante e politicamente correcto, ou politicamente incorrecto, ou seja lá qual for o chavão que está na moda por certas e determinadas bandas), o preconceito.

E voltamos à polissemia (e com isto vão dizer outra vez que se trata de "filosofia complexa"):

  1. preconceito porque se trata de argumentos que não são justificados nem explorados até às suas consequências últimas. Já expliquei o problema do argumento de João Almeida, que não se coaduna com a sua alegada (e suspeito, é mesmo só alegada) desconfiança visceral face ao Estado. Já Michael Seufert não explica por que motivo se dá legitimidade ao Estado ou às religiões para emitirem regras relativamente a uma realidade que as precede. Acaso o Estado legisla sobre se o a Terra gira à volta do Sol ou o contrário (bom a Igreja já o fez, mas adiante)?
  2. preconceito, enfim, por aquilo mesmo que estão a pensar, por pura discriminação em relação às minorias sexuais. Eu normalmente tento evitar este tipo de abordagens; para mim, nós somos livres de nos darmos com quem quisermos. Ninguém é obrigado a gostar nem a dar-se com gays ou lésbicas. Mas ninguém tem o direito de lhes retirar um centímetro dos seus direitos, ou seja, das suas liberdades que não limitam a liberdade de ninguém mais. E não, não estou a dizer que os dois deputados não gostam de gays e lésbicas (isso seria difícil num partido com a demografia do CDS). A questão é que é menos preconceituoso aquele não quer ter amigos homossexuais mas não se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, que o contrário.

E espero que perceber por que motivo o digo não seja demasiado complexo. Isso será mau sinal.

Comentários

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Já percebi que o seu

Já percebi que o seu problema é com a realidade. Continua a inventar mentiras e a negar evidências.

É daqueles que é tão liberal, tão liberal, que acha que o único liberal do mundo é ele próprio. Qual Rei Sol...

Ainda assim, se um dia comprar um cão, preferirei entregá-lo a si do que ao Estado. Exijo apenas uma condição, não me peça para preencher papéis. É que sou alérgico a burocracia.

Retrato de Luís Lavoura

crítica

"o seu problema é com a realidade. Continua a inventar mentiras"

Não considero isto uma forma civilizada e cordata de argumentar. Lamento que um deputado desça a este nível.

Luís Lavoura

Retrato de João Cardiga

????

"Continua a inventar mentiras e a negar evidências."

Gostaria, se não fosse pedir muito a um "ilustre" deputado, que pudesse nomear quais as mentiras e as negações das evidências que ocorrem nos dois artigos do Igor.

"É daqueles que é tão liberal, tão liberal, que acha que o único liberal do mundo é ele próprio."

Parece-me que se fosse o caso ele não estaria nesse grupo, pois consideraria um grupo de não liberais. Mais fazendo fé na sua lógica também não tentaria promover o liberalismo em Portugal pois não teria publico alvo.

"É que sou alérgico a burocracia"

O problema não é com a burocracia per si, que como certamente sabe tem um valor acrescentado. O problema é demasiada burocracia. Mas isto já é um tema paralelo...

Melhores Cumprimentos,

João Cardiga

Retrato de Igor Caldeira

Pensava que o seu argumento

Pensava que o seu argumento era de base jurídica e que o argumento de Michael Seufert era pré-estatal e pré-religioso. Foi isso que pude concluir das vossas justificações.

No entanto, se me estiver enganado, faça o favor de me iluminar.

Os jovens deputados do CDS

Os jovens deputados do CDS são mais fraquinhos do que pensava. Quer dizer, julgava-os com mais arcaboiço argumentativo. É certo que a explanação do Igor Caldeira para além de ser cristalina como a água é também insuperável.

Estes jovens deputados já aprenderam os tiques todos parlamentares: uma vez encurralados, enveredam pelas graçolas. O mais grave é que não passam de piadas foleiras sem graça alguma. Tão novos e já tão velhos!!

Retrato de Luís Lavoura

conceito

Da argumentação de M. Seufert tiro a seguinte frase, que me parece crucial:

"que caiba ao estado ou aos políticos, mudar por decreto o conceito de casamento, que existe antes de existir estado ou religião"

Há aqui um grave engano. O Estado não muda conceito nenhum. O Estado muda um contrato que ele próprio criou. Os conceitos pertencem a cada um de nós, ou à sociedade como um todo. Eu sou livre de considerar que certas pessoas (não) estão verdadeiramente casadas. Ou seja, eu sou livre de manter o meu conceito de casamento. Por exemplo, eu não sou casado (no sentido contratual) com a minha mulher, mas refiro-me a ela perante terceiros como "a minha mulher". E há muita gente que considera (no seu conceito particular) que nós somos casados (embora não usemos alianças nos dedos!) e que nos trata como tal. Ou seja, perante muita gente, nós somos de facto casados. No entanto, não assinámos nunca nenhum contrato de casamento perante o Estado.

Ou seja, e repito, o Estado não muda conceito nenhum. As pessoas continuarão a ser livres de, perante um casal de homossexuais, dizerem "o companheiro dele" ou "o amigo dele" ou "o amante dele" em vez de dizerem "o marido dele". As pessoas serão livres de manterem, e de exprimirem, os seus (pre)conceitos. A única coisa que muda é um contrato perante o Estado, contrato esse que foi criado pelo próprio Estado e para o qual ele tem o direito de definir as regras que considera mais apropriadas à sociedade.

Luís Lavoura

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