o blogue de Daniel Alvarenga

Para Além do PIB?

Aqui há uns tempos o João Mendes trouxe-me à atenção este par de documentos que revelam uma discussão em progresso sobre a necessidade de nos dias que correm irmos além do PIB como ferramenta de análise e medição económica. Ficam aqui as minhas mini-notas da minha leitura rápida.

Esta primeira iniciativa da União Europeia representa ainda os primeiros passos no processo e meramente um reconhecimento do problema. A alternativa existente ao PIB é de momento apenas indicadores avulsos ambientais (footprint ambiental) e o Indice de desenvolvimento Humano das Nações Unidas. http://www.beyond-gdp.eu/

A conclusão óbvia é que o PIB representa um indicador da actividade de mercado mas não toma em consideração o bem-estar em geral. É inadequado para tomar em conta um consumo sustentável, padrões de produção e não mede também diferentes graus de inclusão social. Existe uma necessidade de melhorar o entendimento sobre como as pessoas gastam o seu tempo e qual é a contribuição destas escolhas para o bem-estar. No que toca à sustentabilidade o relatório dá o exemplo de como, em termos práticos, a degradação ambiental na China representa custos de até 6% do PIB.

Quanto ao mega-relatório de Stiglitz (http://www.stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm), realço o seu checklist de factores a tomar em consideração na busca por um indicador de bem-estar mais completo:

• Condições de vida materiais
• Saúde
• Educação
• Actividades pessoais, incluindo o trabalho
• Voz política e governança
• Ligações sociais e relacionamentos
• Ambiente
• Insegurança, económica e física

Todos estes, e a sua possibilidade de medição, são depois discutidos separadamente em pormenor no relatório para os interessados.

O Empurrão de John Rawls – como nem sempre é mau responder a perguntas com perguntas

Depois de um par de noites em que a insipidez dos primeiros debates televisivos me aborreceram e deixaram cheio de saudades das minhas aulas de ciência e filosofia política resolvi deixar aqui, em jeito de aparte, alguma “food for thought” numa nota pessoal que se afasta do debate eleitoral (ou da falta dele) que nos atordoa o cérebro.

John Rawls foi quem mais me empurrou, dentro da minha paixão pelo estudo do poder nas suas mil dimensões, para o Liberalismo. Rawls e a sua famosa alegoria do “véu da ignorância”. Enquanto o estudava vi-me a mim mesmo transportado rapidamente para o desenho do seu jogo fictício no qual, qual “engenheiro social”, estabelecemos as regras do mundo ignorando a posição em que ficaríamos assim que o jogo começasse. Foi este exercício mental que “accionou” o meu lado Liberal. Aquele que acredita em como todos os bens sociais primários – liberdade, oportunidade, riqueza, e as bases do auto-respeito – devem ser distribuídas de forma igualitária a não ser que a sua distribuição não igualitária seja para o benefício dos menos favorecidos. Na sua hierarquia de valores, depois de ele próprio levar a cabo o exercício individual que desenhou, Rawls defendeu que a liberdade igualitária assume precedência em relação a oportunidade igualitária que, por sua vez, assume precedência em relação a uma igualdade de recursos.
Assim sendo , é justo que cada um tenha uma quota parte desigual dos bens sociais desde que este o seja merecido, se isto é o produto das escolhas e acções de um indivíduo. Naturalmente, esta acumulação é todavia injusta se esta desigualdade é fruto do acaso, circunstancial e/ou injusta. Concordo e identifico-me fortemente com estes princípios e daí o meu entusiasmo por este grupo de ideias. Ainda assim, em filosofia política, não existem teorias ou grupos de teorias imunes a críticas, nem bons pensamentos que não abram corredores a perguntas mais profundas e difíceis.

Fica a questão. Ninguém merece nascer com uma deficiência profunda, ou com um QI altíssimo de 135, da mesma maneira que ninguém merece nascer de um dos sexos ou etnia. O inquietante é que, muitas vezes, tantos os aspectos biológicos e naturais assim como as circunstâncias sociais são aspectos de sorte bruta e a justeza dos direitos e bens sociais, dos rendimentos, não deve depender da sorte bruta. Como avaliar e recompensar, incluir nas regras deste jogo, as escolhas e as acções de alguém que teve simplesmente a “sorte bruta” de nascer extremamente inteligente, mesmo que preguiçoso, com a de alguém que não o teve mas que é do mais dedicado e trabalhador que existe? Mais importante que encontrar respostas é muitas vezes aprender a fazer melhores perguntas. Isso todavia nem sempre nos alivia das dificuldades e dilemas que devemos ainda assim sempre procurar apaixonadamente e sem medo ao reflectir sobre os princípios que nos regem.

Deixo por fim aqui um obrigado aos textos do André Escórcio, Luís Lavoura, João Mendes e do João Cardiga por estimularem bem mais o meu cérebro que os grunhidos e caretas destes líderes partidários com que vamos aguentando.

Fred Thompson

Mal posso esperar pelas eleicoes Americanas do ano que vem! Fred Thompson e o ultimo "caracol" de corrida dos Republicanos. Diz quem sabe que "ele podia ter nascido com uma carabina nas maos". Agora que Mccain e um passarinho morto, ele e dos que vai pondo o Giuliani no meio do vazio em que esta. Giuliani perde por todos os lados, desprezado do lado dos elefantes pelas politicas pro-escolha, anti-armas e pro-casamento homosexual e do lado dos burritos simplesmente por ser Republicano. O pobre Giuliani recebe desprezo ate mesmo da sua propria familia ja que a filha disse no Facebook que vai votar no Obama. Infelizmente tenho um pressentimento que as proximas eleicoes serao daquelas que sao boas para um partido perder a longo prazo como por exemplo as que John Major ganhou para os Conservadores em 1992. Logo agora que os dois candidatos democratas tem qq coisa de peculiarmente novo...

O estudo de uma ausência

De possível interesse para aqueles interessados nas discussões sobre os possíveis porquês do tardio liberalismo-partidário em Portugal.

www.politicsinmotion.blogspot.com

Medições laterais

Vanuatu é a nação mais feliz à face da Terra. As variáveis que assim o defendem são: os níveis de consumo de recursos, a esperança média de vida e a felicidade. Tudo isto soa estranho e extraordinário, particularmente a ideia de que é possível medir "felicidade", ainda assim algo nos diz que no fundo deste estudo haverá algo de interessante e ilustrativo.

Vanuatu é uma perdida ilha-nação no sul do Pacífico, um paraíso fiscal sem petróleo que viu o Português Pedro Fernandes de Queirós como o primeiro Europeu a contactar a ilha em 1605.

Antes de submergir completamente nos argumentos por detrás da notícia o raciocínio crítico relaxa por momentos e os impulsos intuitivos assumem controlo. A nível pessoal vêm à cabeça as fantasias de viver numa ilha semi-deserta. Écrans incessantes de séries populares como "Lost", "Temptation Island", "Survivor", "o Náufrago" com o Tom Hanks (!), o bombardeamento de brochuras de férias em todas as formas, prometendo evasão, pequenas ondas transparentes, praias de areia fina misturadas com vestidos e sorrisos exóticos. Voltam à memória os clássicos infantis do Robinson Crusoe, da ilha do Tesouro, Peter Pan e Jurassic Park (!) que de forma mais ou menos permanente ficaram engravados na nossa narrativa individual e collectiva. Existirá algum "urban dweller" do século 21 que não gostasse de (pelo menos por um par de horas) perder-se numa ilha deserta com a sua grande paixão e um mistério (de preferência nao muito complicado) por resolver?

De volta à análise, o índice do Happy Planet colecciona um conjunto de conclusões que inicialmente soam mais a curiosidades (tais como o facto que a "satisfação de vida" aparenta ser superior em ilhas-Nações). Contudo, por detrás disso, ele avalia e fornece dados sobre a sustentabilidade a longo prazo do bem-estar ao mesmo tempo que humildemente reconheçe que, tal como qualquer outro conjunto de estatísticas, padece da devida subjectividade e não almeja fornecer um ranking "ready-made" absoluto (neste caso com os melhores lugares do mundo para se viver). É obviamente compreensível a rejeição violenta do indíce se nunca gostou muito do Robinson Crusoe ou se se passou por uma experiência aterradora ao ver "O Náufrago" no cinema porém, mesmo sendo esse o caso, o índice não merece ser automaticamente descartado. Os estudos da New Economics Foundation apresentam-nos um ponto simples e óbvio mas válido e importante que é o de não existir uma correlação directa entre níveis elevados de destruição ambiental (causada primariamente por um elevado e ineficiente consumo de recursos) e uma vida mais longa e feliz. A política, o desenvolvimento global, o liberalismo e a economia necessitam, mais do que nunca, de exercícios simples e colectivos de pensamento lateral que desafiem e inovem a ordem vigente das coisas.

Happy Planet Index

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