Aqui há uns tempos o João Mendes trouxe-me à atenção este par de documentos que revelam uma discussão em progresso sobre a necessidade de nos dias que correm irmos além do PIB como ferramenta de análise e medição económica. Ficam aqui as minhas mini-notas da minha leitura rápida.
Esta primeira iniciativa da União Europeia representa ainda os primeiros passos no processo e meramente um reconhecimento do problema. A alternativa existente ao PIB é de momento apenas indicadores avulsos ambientais (footprint ambiental) e o Indice de desenvolvimento Humano das Nações Unidas. http://www.beyond-gdp.eu/
A conclusão óbvia é que o PIB representa um indicador da actividade de mercado mas não toma em consideração o bem-estar em geral. É inadequado para tomar em conta um consumo sustentável, padrões de produção e não mede também diferentes graus de inclusão social. Existe uma necessidade de melhorar o entendimento sobre como as pessoas gastam o seu tempo e qual é a contribuição destas escolhas para o bem-estar. No que toca à sustentabilidade o relatório dá o exemplo de como, em termos práticos, a degradação ambiental na China representa custos de até 6% do PIB.
Quanto ao mega-relatório de Stiglitz (http://www.stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm), realço o seu checklist de factores a tomar em consideração na busca por um indicador de bem-estar mais completo:
• Condições de vida materiais
• Saúde
• Educação
• Actividades pessoais, incluindo o trabalho
• Voz política e governança
• Ligações sociais e relacionamentos
• Ambiente
• Insegurança, económica e física
Todos estes, e a sua possibilidade de medição, são depois discutidos separadamente em pormenor no relatório para os interessados.
Depois de um par de noites em que a insipidez dos primeiros debates televisivos me aborreceram e deixaram cheio de saudades das minhas aulas de ciência e filosofia política resolvi deixar aqui, em jeito de aparte, alguma “food for thought” numa nota pessoal que se afasta do debate eleitoral (ou da falta dele) que nos atordoa o cérebro.
John Rawls foi quem mais me empurrou, dentro da minha paixão pelo estudo do poder nas suas mil dimensões, para o Liberalismo. Rawls e a sua famosa alegoria do “véu da ignorância”. Enquanto o estudava vi-me a mim mesmo transportado rapidamente para o desenho do seu jogo fictício no qual, qual “engenheiro social”, estabelecemos as regras do mundo ignorando a posição em que ficaríamos assim que o jogo começasse. Foi este exercício mental que “accionou” o meu lado Liberal. Aquele que acredita em como todos os bens sociais primários – liberdade, oportunidade, riqueza, e as bases do auto-respeito – devem ser distribuídas de forma igualitária a não ser que a sua distribuição não igualitária seja para o benefício dos menos favorecidos. Na sua hierarquia de valores, depois de ele próprio levar a cabo o exercício individual que desenhou, Rawls defendeu que a liberdade igualitária assume precedência em relação a oportunidade igualitária que, por sua vez, assume precedência em relação a uma igualdade de recursos.
Assim sendo , é justo que cada um tenha uma quota parte desigual dos bens sociais desde que este o seja merecido, se isto é o produto das escolhas e acções de um indivíduo. Naturalmente, esta acumulação é todavia injusta se esta desigualdade é fruto do acaso, circunstancial e/ou injusta. Concordo e identifico-me fortemente com estes princípios e daí o meu entusiasmo por este grupo de ideias. Ainda assim, em filosofia política, não existem teorias ou grupos de teorias imunes a críticas, nem bons pensamentos que não abram corredores a perguntas mais profundas e difíceis.
Fica a questão. Ninguém merece nascer com uma deficiência profunda, ou com um QI altíssimo de 135, da mesma maneira que ninguém merece nascer de um dos sexos ou etnia. O inquietante é que, muitas vezes, tantos os aspectos biológicos e naturais assim como as circunstâncias sociais são aspectos de sorte bruta e a justeza dos direitos e bens sociais, dos rendimentos, não deve depender da sorte bruta. Como avaliar e recompensar, incluir nas regras deste jogo, as escolhas e as acções de alguém que teve simplesmente a “sorte bruta” de nascer extremamente inteligente, mesmo que preguiçoso, com a de alguém que não o teve mas que é do mais dedicado e trabalhador que existe? Mais importante que encontrar respostas é muitas vezes aprender a fazer melhores perguntas. Isso todavia nem sempre nos alivia das dificuldades e dilemas que devemos ainda assim sempre procurar apaixonadamente e sem medo ao reflectir sobre os princípios que nos regem.
Deixo por fim aqui um obrigado aos textos do André Escórcio, Luís Lavoura, João Mendes e do João Cardiga por estimularem bem mais o meu cérebro que os grunhidos e caretas destes líderes partidários com que vamos aguentando.
Mal posso esperar pelas eleicoes Americanas do ano que vem! Fred Thompson e o ultimo "caracol" de corrida dos Republicanos. Diz quem sabe que "ele podia ter nascido com uma carabina nas maos". Agora que Mccain e um passarinho morto, ele e dos que vai pondo o Giuliani no meio do vazio em que esta. Giuliani perde por todos os lados, desprezado do lado dos elefantes pelas politicas pro-escolha, anti-armas e pro-casamento homosexual e do lado dos burritos simplesmente por ser Republicano. O pobre Giuliani recebe desprezo ate mesmo da sua propria familia ja que a filha disse no Facebook que vai votar no Obama. Infelizmente tenho um pressentimento que as proximas eleicoes serao daquelas que sao boas para um partido perder a longo prazo como por exemplo as que John Major ganhou para os Conservadores em 1992. Logo agora que os dois candidatos democratas tem qq coisa de peculiarmente novo...
De possível interesse para aqueles interessados nas discussões sobre os possíveis porquês do tardio liberalismo-partidário em Portugal.
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Vanuatu é a nação mais feliz à face da Terra. As variáveis que assim o defendem são: os níveis de consumo de recursos, a esperança média de vida e a felicidade. Tudo isto soa estranho e extraordinário, particularmente a ideia de que é possível medir "felicidade", ainda assim algo nos diz que no fundo deste estudo haverá algo de interessante e ilustrativo.
Vanuatu é uma perdida ilha-nação no sul do Pacífico, um paraíso fiscal sem petróleo que viu o Português Pedro Fernandes de Queirós como o primeiro Europeu a contactar a ilha em 1605.
Antes de submergir completamente nos argumentos por detrás da notícia o raciocínio crítico relaxa por momentos e os impulsos intuitivos assumem controlo. A nível pessoal vêm à cabeça as fantasias de viver numa ilha semi-deserta. Écrans incessantes de séries populares como "Lost", "Temptation Island", "Survivor", "o Náufrago" com o Tom Hanks (!), o bombardeamento de brochuras de férias em todas as formas, prometendo evasão, pequenas ondas transparentes, praias de areia fina misturadas com vestidos e sorrisos exóticos. Voltam à memória os clássicos infantis do Robinson Crusoe, da ilha do Tesouro, Peter Pan e Jurassic Park (!) que de forma mais ou menos permanente ficaram engravados na nossa narrativa individual e collectiva. Existirá algum "urban dweller" do século 21 que não gostasse de (pelo menos por um par de horas) perder-se numa ilha deserta com a sua grande paixão e um mistério (de preferência nao muito complicado) por resolver?
De volta à análise, o índice do Happy Planet colecciona um conjunto de conclusões que inicialmente soam mais a curiosidades (tais como o facto que a "satisfação de vida" aparenta ser superior em ilhas-Nações). Contudo, por detrás disso, ele avalia e fornece dados sobre a sustentabilidade a longo prazo do bem-estar ao mesmo tempo que humildemente reconheçe que, tal como qualquer outro conjunto de estatísticas, padece da devida subjectividade e não almeja fornecer um ranking "ready-made" absoluto (neste caso com os melhores lugares do mundo para se viver). É obviamente compreensível a rejeição violenta do indíce se nunca gostou muito do Robinson Crusoe ou se se passou por uma experiência aterradora ao ver "O Náufrago" no cinema porém, mesmo sendo esse o caso, o índice não merece ser automaticamente descartado. Os estudos da New Economics Foundation apresentam-nos um ponto simples e óbvio mas válido e importante que é o de não existir uma correlação directa entre níveis elevados de destruição ambiental (causada primariamente por um elevado e ineficiente consumo de recursos) e uma vida mais longa e feliz. A política, o desenvolvimento global, o liberalismo e a economia necessitam, mais do que nunca, de exercícios simples e colectivos de pensamento lateral que desafiem e inovem a ordem vigente das coisas.