Ouvi no sábado uma entrevista do célebre cançonetista Paulo de Carvalho à Antena 1. Ele disse o seguinte: que para ele, e para todos os outros cançonetistas e grupos musicais, o principal "mercado" são as Câmaras Municipais. Ele disse que a quase totalidade dos concertos que dá, e que todos os outros cançonetistas dão, são contratados com Câmaras Municipais (ou Juntas de Freguesia), sendo o objetivo desses concertos abrilhantar as festas de uma qualquer povoação. Pelo que, diz ele, a quase totalidade das pessoas que o ouvem em concerto não pagam para o ouvir, o que cria, diz ele, uma relação estranha entre o artista e o público - o público não está ali verdadeiramente porque deseja e escolhe ouvir aquele artista, mas tão-somente porque aquele é o artista que lhe é servido, à borla, pela Câmara Municipal.
Eu não tinha ideia que a situação fosse tão extrema como Paulo de Carvalho a descreveu. Concertos como os nos Coliseus, em que as pessoas acorrem para ouvir um determinado grupo ou artista, e pagam (bem pago!) para isso, são afinal uma minoria. A clientela do cançonetismo português é, predominantemente, uma clientela política.
Este estado de coisas é deveras revoltante. Como é? Então as pessoas não têm voto na música que vão ouvir? Então querem ter música mas só se fôr à borla? Não pode ser!!!
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