(1864 St.Ives, Cornwall, Reino Unido - 1929 Alencon, França)
É fácil de identificar uma linha condutora que atravessa o trabalho teórico de Leonard Trelawny Hobhouse, como académico das Universidades de Oxford e de Londres, teórico liberal e jornalista profilático: uma dedicação firme à mudança progressista e ao melhoramento da vida. A sua aproximação aos temas políticos foi do ponto de vista de um filósofo da evolução e da sociologia, e é visto por muitos como o maior filósofo construtivista do seu tempo.
O seu trabalho é uma resposta directa à pobre condição socio-económica que prevalecia em Inglaterra na altura em que vivia e um ataque às correntes intelectuais que a sustentavam. Como um dos pensadores que lideraram a Escola inglesa da corrente de pensamento do liberalismo social ou novo liberalismo, ele defendia um papel importante do estado democrático na providência de uma segurança-social básica, empregando uma linguagem de humanitarismo, obrigação social, serviço público e reforma social.
Opôs-se à confiança instalada na aplicação da teoria evolucionista à teoria social, crença na selecção natural e pensamento imperialista. O seu trabalho pretendia demonstrar como as liberdades pessoais e as liberdades colectivas podem ser reconciliadas e como um estado liberal não necessita de um estado mínimo mas antes de um estado democrático activo que permita às pessoas desenvolver o seu próprio potencial ao máximo.
Numa diferença bem demarcada do liberalismo clássico e do seu foco exclusivo no individualismo e na premissa da necessidade do conflito entre as liberdades individuais e das relações sociais, Hobhouse manteve a ideia da harmonia entre as pessoas como indivíduos e como membros da sociedade. Esta ideia levou-o a dissertar sobre a supremacia dos valores de partilha sem ter de comprometer a exaltação liberal da individualidade.
Começando pelo indivíduo, identificou elementos de harmonia dentro de cada pessoa entre o sentir, a acção e a experiência. No que toca às relações sociais, viu os mesmos princípios claramente implícitos. Baseado na noção de uma personalidade racional e expressiva, a interacção social é vista como sendo não problemática e o indivíduo não tem conflictos com o bem-comum porque cada objectivo racional é incluído e harmonizado.
Foi o seu conceito de harmonia e a possibilidade das sociedades chegarem a um bem comum, que levou à crítica de outros pensadores. Esses observaram que Hobhouse não considerou a competição, tradicionalmente vista como positiva e necessária para os liberais, como uma característica positiva, devido à fricção que causa à harmonia, e por causa do conflicto com a perspectiva comum.
A sua grande confiança na compatibilidade dos interesses, valores e objectivos das pessoas pode ser questionada dada a diversidade de valores e concepções de “uma boa vida”. Esta diversidade traz à questão a sua insistência na integração da esfera da moral pública e deixa a pergunta sobre se existe uma relação entre deveres e direitos pessoais e colectivos.
Ler o seu trabalho é uma experiência enriquecedora, pelo menos, por três razões. Primeiro a sua atenção à relação e interdependência entre as liberdades sociais, económicas e políticas e a concreta elaboração das liberdades e suas restrições correspondentes é intemporal. Em segundo lugar, a sua discussão da história de várias teorias e ideias políticas, a que se opõe, entre as quais, por exemplo, a escola de Manchester, o idealismo Germânico, as teorias naturistas/evolucionistas e Marxismo, oferece ao leitor um entendimento muito compreensível do pensamento político, bem como dos seus defensores. Finalmente, Hobhouse lembra-nos da variedade que existe dentro do liberalismo e da necessidade de repensar antíteses assumidas e tomadas por garantidas, como por exemplo entre liberdades individuais e liberdades sociais, tendo em consideração circunstâncias que se foram alterando.
Bibliografia
- Leonard Hobhouse - Democracy and Reaction, 1905
- Leonard Hobhouse - Development and Purpose, 1913
- Leonard Hobhouse - Liberalism, 1912
- W.Seaman - L.T. Hobhouse and the development of liberal-democratic theory, 1976
- G.L.Bernstein - Liberalism and Liberal Politics in Edwardian England, Allen& Unwin, London, 1986
- J.Meadowcroft (ed.) - Hobhouse: Liberalism and Other Writings, Cambridge Univ.-Press, 1994