Modernices

Consta que Sócrates quer adoptar uma estratégia próxima da de Obama para as próximas legislativas. Mesmo que consiga adoptar os mesmos mecanismos, Sócrates e entourage não perceberam nada de Obama.
O que faz alguém vencer só num povo de perfeitos imbecis (e há-os e muitos) pode ser o meio, o veículo, o espalhafato. Nos outros, os meios são apenas isso: meios de comunicação. /Meios/ de /Comunicação/. Ou seja, há algo a comunicar, e para tal se usam determinados meios. Ora, a primeira coisa que temos de saber é se há algo a comunicar.

Obama não tinha nada de concreto para comunicar. Obama era um sentimento, não era um argumento. Um sentimento de tão grande intensidade que em política só se tem pelo desconhecido.

E Sócrates não nos é desconhecido.

Desde logo, as vazas do PS ficam por aqui cortadas. Tão extraordinário movimento de base, possível pela internet, só se pôde iniciar porque havia uma Paixão.

Mas admitamos que pela Razão se pode originar um movimento semelhante. Aqui, a ideia de que se tem de /comunicar/ /algo/ torna-se premente. Um conjunto articulado, coerente de motivações para os cidadãos agirem por algo exige uma ideia de fundo e um plano ordenado.

Pergunto se alguém vê isso. E alargo a questão para o PSD.
Alguém vê um projecto?
Alguém vê algo de novo?
Alguém que não seja um eleitor fiel de qualquer partido consegue sequer dizer que vai votar com toda a confiança num dos partidos?

Não, não, não - é preciso ser um cretino para não ver a cretinice que temos pela frente. Como é que se vai lançar um movimento "grassroots" (usar um anglicismo é, a par do deslumbramento tecnológico e normalmente em conjunto com ele, uma das marcas da imbecilidade que grassa por aí) se não há nada de novo, se não há sentimento que não seja o desespero, e um desespero, permitam-me o pleonasmo, sem esperança (porque os americanos tinham um desespero que encontrou em algo de novo uma promessa de fim), se não sabemos nada do que os partidos querem excepto que eles querem o poder para aquilo que nós sabemos que eles querem e quanto ao mais nem eles sabem o que querem?

Antes do fogo de artifício, escolhessem ao menos para onde querem apontá-lo. O Norte não se encontra na internet, encontra-se nos ideais; e, se não houver ideais (já sabemos que não os há) ao menos que tenham ideias.
Vá lá, ideia.
Uma.
Uma que seja.

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Retrato de Luís Lavoura

Dinheiro

Há uma outra diferença muito importante entre a campanha de Obama e a de Sócrates.

A campanha de Obama tinha por fim essencial motivar as pessoas a doarem dinheiro para essa campanha. Uma das medidas cruciais do sucesso da campanha de Obama era, precisamente, a quantidade de dinheiro doada para a "causa".

A campanha de Sócrates não poderá sequer, em termos legais, ter o mesmo objetivo, e a mesma medida de sucesso, dado que em Portugal, ridiculamente, um partido nada ganha em conseguir que os seus partidários doem dinheiro para a sua campanha eleitoral. Em Portugal, cada euro a mais doado por um particular é um euro a menos recebido de financiamento estatal, pelo que o partido nada ganha em receber financiamentos privados.

Neste sentido crucial, a campanha de Sócrates será sempre fundamentalmente diferente da de Obama. Enquanto que a campanha de Obama teve uma medida de mérito objetivamente mensurável, a campanha de Sócrates nunca a terá.

Luís Lavoura

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