Ontem Eduardo Prado Coelho, na sua coluna habitual do Público, dedica uma das alíneas ao facto de Filipe La Féria ter obtido a gestão do Teatro Rivoli no Porto, declarando-se "estarrecido", "embora nada tenha contra Filipe La Féria" e classificando de "rasteira" a política cultural do executivo camarário do Porto, sendo a passagem do teatro para a gestão de Filipe Lá Féria "uma machadada no tipo de espectáculos que o Rivoli vinha exibindo até então".
Gostaria de comentar o seguinte:
1. Tenho muito respeito por Eduardo Prado Coelho, não só pelo seu notável currículo académico como pelo seu espaço de opinião que, concorde-se ou não com ele, é um espaço de qualidade.
2. Não pude ficar indiferente à coragem a que já nos habituou Rui Rio, quando decidiu pôr cobro a uma situação injusta pela qual um grupo vastíssimo de mais de 30 elementos eram subsidiados com o dinheiro dos contribuintes sem que estes fossem compensados com espectáculos a seu gosto. Compreendo no entanto o papel destes elementos que convencidos que estão de produzirem espectáculos de qualidade acham injusta a perda do seu ou de um dos seus sustentos. Aí não terão eles culpa, mas sim quem lhes atribuiu antes esse mesmo sustento.
3. Não posso concordar com Eduardo Prado Coelho quando ele chama de "rasteiro" a quem tem de gerir um espaço público e ter a batata quente de decidir a quem vai entregar a gestão desse mesmo espaço e decide por quem apresenta resultados e garantias melhores. Para a área política e para a sensibilidade cultural de EPC os subsídios públicos não devem olhar a lucros desde que determinado tipo de espectáculo seja exibido e corresponda aos seus parâmetros de qualidade. Por muito que isso custe a nós contribuintes. Mal eles se lembram que antes de existir política de subsídios públicos também existiam espectáculos de qualidade indiscutível, quer quando agradavam ao público quer quando era o mecenato a proteger determinados artistas. A política de mecenato cultural em Portugal quase não existe devido ao papel do Estado que praticamento o substituiu.
4. Ignora também EPC que a vinda de espectáculos que mobilizem multidões e tragam dinheiro à Invicta ajuda também a mobilizar a decrépita Baixa Portuense e acabem por atrair pessoas para outro tipo de espectáculos, menos comerciais.
5. O único espectáculo teatral a que fui assistir no Rivoli saí a meio e paguei mais de 10€ pelo bilhete. Na sala poucos ficaram, e desses poucos tinham pago bilhete pois eram convidados - facto que desde o Porto 2001 é corrente em diversas salas de espectáculo no Porto (não sei se em Lisboa também não será assim mas isso já é offtopic). Por isso nada me surpreende que a gestão desse espaço estivesse de rastos antes da intervenção de Rui Rio.
6. Os slogans grotescos que os activistas anti-Rio encetaram pelo Rivoli voltam-se contra eles próprios: RIVOLIVRE é um conceito óptimo que designa precisamente um Rivoli livre da tutela do Estado, dos arranjinhos político-partidários, nas mãos de uma gestão privada, independente e competente.
Peço desculpa a quem não é do Porto e não conheça bem a Invicta por chamar aqui a este espaço um longo post sobre algo que é digamos algo localizado no tempo e no espaço, mas não deixa de ser emblemático acerca da política cultural deste país e do rumo que no meu entender deve seguir: Rui Rio é no geral, um político liberal e quem dera ao PSD tê-lo como líder (algo que também referiu EPC como sendo uma hipótese escandalosa. Porquê a preocupação deste intelectual militante do PS em quem vai liderar o partido rival?).